A indústria fintech na Nigéria enfrenta o "dilema do sucesso e da confiança"

A finança digital na Nigéria enfrenta uma contradição. Apesar de processar mais de 11 mil milhões de transações por dia e de possuir um dos sistemas de pagamento em tempo real mais sofisticados do mundo, continua a ser vista internacionalmente como um terreno fértil para fraudes. O novo relatório do Banco Central da Nigéria (CBN) analisa diretamente esta realidade complexa.

Os 11 mil milhões de transações que demonstram o poder da inovação fintech

O volume de transações fintech na Nigéria ultrapassa todas as expectativas. Em 2024, o sistema de pagamento instantâneo do país processou 11 mil milhões de transações. Isto não é apenas uma questão de volume financeiro, mas sim de 11 mil milhões de transações individuais, cada uma concluída em tempo real, testemunho da revolução financeira digital na Nigéria.

O crescimento nos últimos dois anos tem sido avassalador. Desde 2022, registou um aumento de 120%, uma taxa de expansão que supera largamente a de muitos países avançados. É importante notar que a Nigéria começou a operar este sistema de pagamento em tempo real em 2011, antes mesmo de os Estados Unidos terem um sistema moderno de pagamentos instantâneos ou de a Índia lançar a sua UPI (Interface Unificada de Pagamentos).

Mercadores em Lagos continuam a fazer toques no smartphone, avós em Kano recebem remessas de filhos distantes, estudantes dividem custos de forma colaborativa. Estas atividades financeiras quotidianas acumulam-se, gerando centenas de milhares de transações fintech por segundo.

Desafios no equilíbrio entre regulação e inovação

No entanto, o ambiente regulatório que sustenta o crescimento da indústria fintech na Nigéria está dividido. Quando se pergunta aos fundadores, na investigação do CBN, se a regulação ajuda ou impede a inovação, as respostas estão completamente divididas: 50% acredita que regula o crescimento, os outros 50% que limita.

Esta divisão reflete-se também na experiência de cada empresa. Um fundador afirmou: «Há dias em que acho que o regulador é o mais avançado de África, e outros em que espero nove meses por uma aprovação e penso em mudar para o Quénia.»

Mais de um terço das fintechs enfrenta atrasos superiores a um ano na introdução de novos produtos no mercado. Quase dois terços relatam que os processos de aprovação prejudicam significativamente a sua capacidade de inovar. O tempo de espera para aprovações influencia fortemente as estratégias de crescimento das empresas.

Ao mesmo tempo, a comunicação com os reguladores é insuficiente. Há pedidos por fóruns regulares e por ambientes de testes (sandboxes) para novos serviços. As empresas não querem evitar a regulação, mas sim participar na sua conceção, contribuindo com o seu conhecimento.

Realidade das fintechs na luta contra fraudes

Quando o mundo pensa na Nigéria e fintech, muitas vezes associa a imagem a fraudes. Contudo, a realidade interna é bastante diferente.

Quase 87,5% das fintechs na Nigéria usam inteligência artificial principalmente para detectar atividades fraudulentas. Em vez de chatbots de atendimento ao cliente, utilizam IA especializada para identificar e capturar criminosos. Uma empresa, por exemplo, implementou um sistema de IA com 90% de precisão na deteção de pedidos de empréstimos fraudulentos, evitando perdas de milhões de nairas.

Os resultados são visíveis: as perdas por fraudes em pagamentos digitais diminuíram 51% nos últimos anos. Contudo, manter esta vigilância tem custos elevados. 87,5% dos gestores de fintechs afirmam que os custos de conformidade afetam significativamente a sua capacidade de investir em inovação. Equilibrar segurança e crescimento é um desafio constante para o setor.

Como incluir os 26% de não utilizadores de serviços financeiros

Apesar do avanço nas cidades, muitas pessoas em zonas rurais continuam excluídas do sistema financeiro. Cerca de 26% da população adulta ainda não tem acesso a serviços financeiros formais. Nas zonas rurais, essa percentagem sobe para 37%, e na região de Katsina, no norte, quase metade dos adultos (47%) permanece fora do sistema bancário.

Mulheres rurais, como uma vendedora de vegetais de 62 anos no norte, representam milhões de pessoas sem conta bancária. O principal obstáculo para as fintechs alcançarem estes grupos é o custo elevado de verificação de identidade e a falta de confiança.

Embora existam sistemas nacionais de identificação e o Número de Conta Bancária (BVN), o acesso a estes sistemas é caro para pequenas fintechs, e as plataformas podem falhar em momentos críticos. Mais de um terço das empresas aponta estes fatores como principais obstáculos à inclusão financeira. A infraestrutura existe, mas torná-la acessível a preços acessíveis é o verdadeiro desafio.

Barreiras regulatórias ao crescimento regional e possíveis soluções

Quase dois terços das fintechs na Nigéria planeiam expandir-se para outros países africanos, começando pelo Gana, e considerando também Quénia e África do Sul.

Contudo, a expansão internacional enfrenta obstáculos significativos. Cada novo mercado exige licenças, conformidade e múltiplas aprovações, que podem levar meses ou anos.

Um gestor explica: «É como recomeçar do zero a cada país.» Apesar de terem demonstrado sucesso na Nigéria, as empresas têm de reapresentar toda a sua conformidade e tecnologia de combate a fraudes em cada novo país.

Para resolver este problema, 62,5% das fintechs apoiam a implementação de um sistema de «passaporte regulatório». Este permitiria que licenças e conformidades obtidas na Nigéria fossem reconhecidas por outros países africanos, acelerando a expansão das empresas pelo continente.

Necessidade urgente de autonomia no financiamento

A maior parte do financiamento para o crescimento da fintech na Nigéria vem do exterior. Em 2024, as startups nigerianas arrecadaram cerca de 520 milhões de dólares, na sua maioria de capital de risco estrangeiro.

Esta dependência expõe a vulnerabilidade do ecossistema. Quando as taxas de juro nos EUA e na Europa aumentaram, os investimentos na Nigéria reduziram-se drasticamente, levando empresas a cortar pessoal e adiar lançamentos de novos produtos.

Por que há pouca captação de fundos no mercado interno? Mais de um terço dos fundadores considera difícil ou muito difícil obter capital na Nigéria. A volatilidade cambial, a escassez de instrumentos de investimento a longo prazo e a incerteza regulatória contribuem para isso.

A indústria pede medidas concretas: quase 90% das fintechs apoiam a criação de fundos de crescimento dedicados e de garantias de crédito para empresas locais, fortalecendo a dependência do capital doméstico e aumentando a resiliência às crises internacionais.

100% das empresas querem colaborar com reguladores

Apesar dos desafios de atrasos, custos e divergências, a investigação do CBN revelou uma surpresa: 100% das fintechs entrevistadas afirmam estar dispostas a colaborar com os reguladores.

Não é apenas uma formalidade. Três quartos desejam participar na criação de fóruns regulares com o Banco Central, e querem ambientes de testes (sandboxes) para novos modelos de negócio. Querem estar envolvidos na definição das regras desde a sua conceção.

Um gestor afirmou: «Não queremos que nos impeçam de regular, queremos ajudar a criar melhores regras. Queremos que as nossas experiências na luta contra fraudes e na inclusão de excluídos sejam consideradas.»

Esta postura demonstra maturidade e consciência do setor. Reconhecem a importância de um ambiente regulatório bem desenhado e querem contribuir para a sua otimização.

A Nigéria e a sua posição no cenário global

O relatório do Banco Central não é apenas uma lista de problemas, mas uma proposta de soluções. Propõe a criação de fóruns permanentes de diálogo, e a implementação de um sistema de passaporte regulatório piloto com Gana e Quénia, entre outras medidas.

Algumas já estão em andamento. A Nigéria, após reforçar o combate à fuga de capitais, conseguiu sair da lista cinzenta do FATF em 2024. As taxas de fraude também diminuíram, e a reputação internacional começa a melhorar.

Um marco simbólico foi a recente distinção do sistema de pagamento instantâneo nigeriano, que recebeu a classificação de «maturidade» na África, a primeira do continente. Os 11 mil milhões de transações fintech não são apenas números, mas provas de uma realidade onde tecnologia, regulação e envolvimento humano se cruzam.

O maior desafio agora é se a comunidade internacional reconhecerá esse progresso. Não se trata de fraudes de uma minoria de criminosos, mas de compreender e valorizar os 11 mil milhões de transações bem-sucedidas. O setor fintech na Nigéria evolui, mas o próximo passo é que essa evolução seja reconhecida globalmente.

A cada segundo, em algum lugar da Nigéria, o dinheiro continua a mover-se. Estudantes dividem despesas, comerciantes tocam no smartphone, pessoas rurais procuram acesso a serviços financeiros. O futuro financeiro de África está a ser escrito silenciosamente, mas com firmeza.

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