Alegando "pagamentos globais sem KYC", prevê-se o encerramento inevitável dentro de 6 meses

Autor: milian

Compilação: AididiaoJP, Foresight News

Título original: Por que cartões de criptomoeda que bypassam KYC estão destinados a fracassar?


No mundo das criptomoedas, a promessa de “cartões de criptomoeda sem necessidade de KYC (verificação de identidade)” ocupa uma posição peculiar.

São promovidos como uma conquista tecnológica, embalados como um produto de consumo, e vistos como uma “via de fuga” para escapar do monitoramento financeiro. Desde que o Visa ou Mastercard sejam aceitos, é possível gastar com criptomoedas, sem necessidade de identificação, sem informações pessoais, sem perguntas.

Você pode naturalmente perguntar: por que ninguém conseguiu fazer isso de fato? A resposta é: na verdade, já foi feito — mais de uma vez — mas também fracassou repetidamente.

Para entender o porquê, não se deve começar pelas próprias criptomoedas, mas pela infraestrutura dos cartões de criptomoeda. Cartões de débito e crédito não são ferramentas neutras; eles são concedidos por um sistema de pagamento altamente regulado, dominado pelos gigantes Visa e Mastercard, que concede uma “licença de passagem”. Qualquer cartão que possa ser usado globalmente deve ser emitido por um banco licenciado, roteado por um BIN de seis dígitos reconhecível, e sujeito a uma série de obrigações contratuais de conformidade — incluindo a proibição de usuários finais anônimos.

Construir um cartão sobre o sistema Visa/Mastercard não permite qualquer “solução alternativa” técnica. A única saída é “declarações falsas”.

Os “cartões de criptomoeda sem KYC” vendidos no mercado geralmente são, na essência, cartões corporativos. Exceto aqueles com limites extremamente baixos, destinados a uso em pequena escala, esses cartões legalmente são emitidos para empresas (normalmente empresas de fachada), com o propósito predefinido de reembolso interno de despesas de funcionários. Em alguns casos, essas empresas são legítimas; em outros, sua existência é apenas para obter a licença de emissão do cartão.

O consumidor final nunca é o titular previsto desses cartões.

Essa estrutura pode funcionar a curto prazo. Os cartões são distribuídos ao público, rotulados como produtos de consumo, e sua existência é tolerada até que chamem atenção suficiente. Mas essa atenção inevitavelmente atrai fiscalização. Um representante de conformidade do Visa pode rastrear o banco emissor via BIN, identificar abusos, e encerrar o projeto. Quando isso acontece, a conta é congelada, o parceiro de emissão é cortado, e o produto desaparece — geralmente em seis a doze meses.

Esse padrão não é uma hipótese. É uma realidade repetida, observável e bem conhecida na indústria de pagamentos.

A ilusão persiste apenas porque o “fechamento” sempre ocorre após o “lançamento”.

Por que os usuários são atraídos por cartões “sem KYC”

A atração por cartões sem KYC é bastante específica.

Reflete as limitações enfrentadas na obtenção de fundos na prática, entrelaçando questões de privacidade e de usabilidade. Alguns usuários valorizam a privacidade por princípio, outros vivem em regiões com acesso restrito, instável ou simplesmente negado por bancos tradicionais. Para países sancionados, KYC não é apenas uma invasão de privacidade, mas uma barreira direta, limitando severamente quando e como podem usar canais financeiros.

Nessas circunstâncias, ferramentas de pagamento sem KYC não representam uma escolha ideológica, mas uma “linha de vida” temporária.

Essa distinção é crucial. O risco não desaparece porque “é necessário”. Ele apenas se concentra. Usuários que dependem dessas ferramentas sabem exatamente o que estão fazendo: sacrificando segurança a longo prazo por usabilidade a curto prazo.

Na prática, canais de pagamento que eliminam a verificação de identidade e a reversibilidade das transações acumulam continuamente fluxos de transações que não podem passar por auditorias de conformidade padrão. Essa é uma realidade operacional observada por emissores, operadores de projetos e redes de cartões — não uma hipótese teórica. Quando o acesso é livre e a capacidade de rastreamento é fraca, fundos de outros locais que são bloqueados naturalmente fluem para esses canais.

Quando o volume de transações cresce, esse desequilíbrio se torna rapidamente evidente. O acúmulo de fundos de alto risco é a principal razão pela qual esses projetos, independentemente de sua estratégia de marketing ou do público-alvo, acabam sendo alvo de fiscalização e intervenção.

A publicidade em torno de cartões de criptomoeda sem KYC é frequentemente exagerada, muito além das limitações legais enfrentadas pelas redes de pagamento. Essa lacuna entre “promessa” e “restrição” muitas vezes passa despercebida na hora do cadastro, mas prepara o terreno para o fracasso quando o produto escala.

A dura realidade da infraestrutura de pagamento

Visa e Mastercard não são intermediários neutros. São redes de pagamento reguladas, operando por meio de bancos emissores licenciados, bancos adquirentes e contratos de conformidade que exigem que o usuário final seja identificável.

Cada cartão globalmente utilizável está vinculado a um banco emissor, que deve seguir regras específicas. Essas regras exigem que o usuário final seja reconhecível. Não há mecanismos de saída, configurações ocultas ou abstrações técnicas que possam contornar esse requisito.

Se um cartão funciona globalmente, por definição, ele está embutido nesse sistema. As restrições não estão na camada de aplicação, mas nos contratos que regem liquidação, emissão, responsabilidade e resolução de disputas.

Portanto, criar um cartão que permita consumo ilimitado e sem KYC via canais Visa ou Mastercard não é apenas difícil — é impossível. Qualquer coisa que pareça violar essa realidade está operando dentro de limites de pré-pagamento estritos, ou classifica erroneamente o usuário final, ou apenas “adianta” a aplicação da lei, sem evitá-la de fato.

Detecção é trivial. Uma transação de teste revela o BIN, o banco emissor, o tipo de cartão e o gestor do projeto. Encerrar o projeto é uma decisão administrativa, não um desafio técnico.

A regra fundamental é simples:

Se você não fez KYC na sua carta, alguém fez.

E quem fez KYC é quem realmente controla essa conta.

Explicação detalhada da “falha da carta corporativa”

A maioria dos chamados cartões de criptomoeda sem KYC depende de um mecanismo comum: cartões corporativos de despesas.

Essa estrutura não é misteriosa. É uma “falha” bem conhecida na indústria, ou uma “segredo a portas fechadas” criado pelo modo de emissão e gestão de cartões corporativos. Uma empresa se registra por meio de um processo de KYB (conheça seu banco), que geralmente é mais relaxado do que o de consumidores individuais. Para o emissor, essa empresa é o cliente. Uma vez aprovada, ela pode emitir cartões para funcionários ou usuários autorizados, sem necessidade de verificar a identidade de cada titular.

Teoricamente, isso visa apoiar operações comerciais legítimas. Na prática, é frequentemente abusado.

O usuário final é, na prática, tratado como “funcionário”, não como cliente bancário. Por isso, não passa por KYC individual. Essa é a “fórmula” que permite que esses produtos se autodenominem “sem KYC”.

Diferente de cartões pré-pagos, cartões corporativos podem manter e transferir grandes quantidades de fundos. Sua concepção original não foi para distribuição anônima ao consumidor, nem para custódia de fundos de terceiros.

Como criptomoedas geralmente não podem ser depositadas diretamente, é necessário usar “soluções alternativas” no backend: intermediários de carteiras, camadas de conversão, contabilidade interna…

Essa estrutura é inerentemente frágil. Pode durar até que chame atenção suficiente. Assim que isso acontecer, a fiscalização é inevitável. Históricos mostram que projetos construídos dessa forma raramente sobrevivem mais de seis a doze meses.

O fluxo típico é:

  1. Criar uma empresa, passar por KYB com o emissor do cartão.
  2. Para o emissor, essa empresa é o cliente.
  3. A empresa emite cartões para “funcionários” ou “usuários autorizados”.
  4. Os usuários finais são tratados como funcionários, não como clientes bancários.
  5. Portanto, os próprios usuários finais não passam por KYC.

Isso é uma falha, ou é ilegal?

Emitir cartões corporativos para funcionários reais, para despesas legítimas, é legal. Mas emitir esses cartões ao público, como produto de consumo, não é.

Se o cartão for distribuído a “falsos funcionários”, promovido publicamente ou usado principalmente para consumo pessoal, o emissor corre riscos. Visa e Mastercard podem agir sem novas regulamentações, apenas aplicando regras existentes.

Uma auditoria de conformidade é suficiente.

Os responsáveis podem se registrar, receber o cartão, identificar o banco emissor via BIN, rastrear o projeto e encerrá-lo.

Quando isso ocorre, a conta é congelada inicialmente. Uma explicação pode vir posteriormente, ou nem vir — às vezes, nem há explicação.

Ciclo de vida previsível

Projetos de cartões de criptomoeda “sem KYC” que fazem marketing dessa forma seguem um padrão surpreendentemente consistente, repetido em dezenas de casos.

Primeiro vem a fase de “isca”. O projeto inicia discretamente, com acesso limitado, e os primeiros usuários relatam sucesso. A confiança cresce, o marketing acelera. Os limites aumentam, influenciadores promovem promessas. Prints de sucesso se espalham, e o projeto, inicialmente nicho, ganha atenção.

A visibilidade é o ponto de virada.

Quando o volume de transações aumenta, o projeto chama atenção, e a fiscalização é inevitável. Bancos emissores, gestores ou redes de cartões revisam suas atividades. BINs são identificados. A discrepância entre a publicidade e o funcionamento permitido pelos contratos fica clara. Nesse momento, a fiscalização deixa de ser um problema técnico e passa a ser uma questão administrativa.

Em seis a doze meses, quase sempre o desfecho é o mesmo: o emissor é advertido ou termina a parceria; o projeto é suspenso; o cartão para de funcionar sem aviso prévio; o saldo é congelado; os operadores desaparecem após tickets de suporte e e-mails genéricos. Os usuários não têm como reclamar, não têm status legal, e não há uma previsão clara de recuperação de fundos — se é que há.

Não é uma hipótese, nem uma teoria. É um padrão observável, repetido em diferentes jurisdições, emissores e ciclos de mercado.

Cartões “sem KYC” operando sob o sistema Visa ou Mastercard sempre serão encerrados, sendo a única variável o tempo.

Ciclo de destruição inevitável (resumido)

  • Fase de isca: cartão “sem KYC” é lançado discretamente. Usuários iniciais têm sucesso, influenciadores promovem, o volume aumenta.
  • Período de pressão regulatória: bancos emissores ou redes de cartões revisam o projeto, identificam o uso indevido do BIN, e detectam a estrutura abusiva.
  • Cruzando a linha:
    • Introdução forçada de KYC → promessa de privacidade completamente destruída.
    • Operadores desaparecem ou fogem → cartão desativado, saldo congelado, canais de suporte cessam.

Não há uma quarta possibilidade.

Como identificar uma “cartão sem KYC” em 30 segundos

Tomando como exemplo a publicidade do Offgrid.cash para cartões de criptomoeda sem KYC. Ao ampliar a imagem do cartão, um detalhe se destaca imediatamente: o selo “Visa Business Platinum”.

Isso não é um detalhe de design ou uma escolha de marca, é uma classificação legal. A Visa não emite cartões Platinum Business para consumidores anônimos. Esse rótulo indica que se trata de um cartão corporativo, cujo titular e fundos pertencem à empresa, não ao usuário individual.

O significado profundo dessa estrutura raramente é explicitamente comunicado. Quando o usuário deposita criptomoedas nesse sistema, ocorre uma mudança legal sutil, mas crucial: o dinheiro deixa de ser propriedade do usuário e passa a ser controlado pela empresa que possui a conta na instituição bancária. O usuário não tem relação direta com o banco, não há seguro de depósito, e não pode reclamar junto à Visa ou Mastercard.

Legalmente, o usuário não é cliente. Se o projeto for encerrado ou o cartão desativado, os fundos não são “roubados”, mas transferidos voluntariamente para um terceiro que já não existe ou não pode mais acessar a rede do cartão.

Ao depositar criptomoedas, ocorre uma mudança legal fundamental:

  • Os fundos deixam de ser seus.
  • Pertencem à empresa que completou KYB com o banco emissor.
  • Você não tem relação direta com o banco.
  • Não há proteção de depósito.
  • Você não pode reclamar junto à Visa ou Mastercard.
  • Você não é cliente. É apenas um “centro de custos”.
  • Se a Offgrid desaparecer amanhã, seus fundos não foram “roubados” — você os transferiu legalmente para um terceiro.

Esse é o risco central que a maioria dos usuários nunca percebeu.

Três sinais de perigo imediato

Você não precisa de informações privilegiadas para saber se está financiando um cartão corporativo. Basta observar três pontos:

  • Tipo de cartão impresso: se estiver escrito Visa Business, Business Platinum, Corporate ou Commercial, não é um cartão de consumo. Você está sendo tratado como “funcionário”.
  • Selo de rede: se for suportado por Visa ou Mastercard, deve cumprir regras de combate à lavagem de dinheiro, sanções e rastreabilidade do usuário final.
  • Não há exceções.
  • Não há soluções técnicas alternativas.
  • É uma questão de tempo.
  • Limites de consumo irracionais: se um cartão oferece limite mensal alto, recarregável, globalmente utilizável, sem KYC, provavelmente alguém fez KYB em seu nome.

Projetos atuais de cartões “sem KYC”

Atualmente, os projetos de cartões “sem KYC” se dividem em duas categorias: pré-pagos e chamados de “cartões empresariais”. Estes dependem de várias variações da vulnerabilidade de cartões corporativos mencionada acima, com nomes diferentes, mas estrutura semelhante.

Uma lista não exaustiva de projetos de cartões “sem KYC” (pré-pagos e cartões empresariais) pode ser encontrada em https://www.todey.xyz/cards/.

Por exemplo:

  • Offgrid.cash
  • Bitsika
  • Goblin Cards
  • Bing Card
  • Outros similares, distribuídos via Telegram ou por convite exclusivo, de “cartões de criptomoeda”

Estudo de caso: SolCard

SolCard é um exemplo clássico. Começou como um cartão “sem KYC” que ganhou atenção, mas foi forçado a migrar para um modelo totalmente KYC. A conta foi congelada até que o usuário fornecesse documentos de identidade, destruindo de uma vez a promessa de privacidade inicial.

O projeto acabou adotando uma estrutura híbrida: um cartão pré-pago de limite extremamente baixo, sem KYC, e outro totalmente KYC. O modelo original “sem KYC” não conseguiu sobreviver ao atrair uso substancial, resultado inevitável de operar em uma rota incompatível.

Estudo de caso: Dolphin Card do Aqua Wallet

Em meados de 2025, a carteira Aqua Wallet, desenvolvida pela JAN3, lançou o Dolphin Card. Como uma versão de teste limitada, para 50 usuários, sem necessidade de documentos de identidade. Podiam depositar Bitcoin ou USDT, com limite de US$4000.

Esse limite é revelador — claramente foi definido para reduzir riscos regulatórios.

Estruturalmente, o Dolphin Card combina um modelo pré-pago com uma configuração de conta corporativa. O cartão opera por meio de uma conta controlada pela empresa, não por uma conta bancária individual.

Por um tempo, funcionou normalmente, mas não por muito tempo.

Em dezembro de 2025, o projeto foi abruptamente suspenso devido a “problemas inesperados” do fornecedor do cartão. Todos os Dolphin Visa Cards foram desativados imediatamente, e o saldo restante só pôde ser reembolsado manualmente via USDT, sem explicação adicional.

Riscos para os usuários

Quando esses projetos colapsam, quem paga o preço é o usuário.

Os fundos podem ficar congelados por tempo indeterminado, o reembolso pode ser complicado, ou o saldo pode ser perdido completamente. Não há seguro de depósito, proteção ao consumidor, nem direito legal contra o banco emissor.

Especialmente perigoso é que muitos operadores já sabem desse desfecho antecipadamente. Ainda assim, continuam avançando. Outros usam justificativas como “tecnologia proprietária”, “inovação regulatória” ou “nova infraestrutura” para mascarar os riscos.

Emitir cartões corporativos para funcionários falsos não requer “tecnologia proprietária”.

No melhor dos casos, é ignorância; no pior, é exploração pura.

Pré-pagos e cartões-presente: o que realmente funciona?

Existem ferramentas de pagamento legítimas sem KYC, mas com limites rigorosos.

Pré-pagos adquiridos por fornecedores regulamentados são legais porque têm limites muito baixos, destinados a pequenas transações, sem a pretensão de oferecer consumo ilimitado. Como as pré-pagas de plataformas como Laso Finance.

(Imagem do site LasoFinance)

Cartões-presente também são uma alternativa. Serviços como Bitrefill permitem que usuários comprem, de forma privada, cartões-presente de grandes lojas usando criptomoedas, de forma totalmente legal e conforme as regras.

(Imagem do site bitrefill)

Essas ferramentas funcionam porque respeitam os limites regulatórios, ao contrário de fingir que não existem.

A questão da falsa promessa

A maior ameaça não é a ideia de “sem KYC” em si, mas a promessa de que isso é “permanente”.

Muitos desses projetos sugerem que “resolveram” o problema, que descobriram “falhas estruturais”, e que suas tecnologias tornam a conformidade “irrelevante”.

Mas isso não é verdade.

Visa e Mastercard não negociam com startups. Elas apenas aplicam regras.

Qualquer produto que prometa limites altos, recarregáveis, globais, sem KYC, e exiba o símbolo de Visa ou Mastercard, está ou fazendo declarações falsas sobre sua estrutura, ou planejando desaparecer em breve.

Não existe uma “tecnologia proprietária” capaz de contornar esse requisito fundamental.

Alguns operadores alegam que, no futuro, o KYC será feito via “prova de conhecimento zero” (zero-knowledge proof), de modo que a própria empresa nunca precisará coletar ou armazenar dados de identidade. Mas isso não resolve o problema central. Visa e Mastercard não se importam com “quem” viu a identidade; eles exigem que ela seja registrada, acessível para auditorias, disputas ou ações legais, por bancos emissores ou parceiros de conformidade.

Mesmo que a verificação seja feita por credenciais de privacidade, o emissor ainda precisa de acesso a um registro claro e legível. Isso não é “sem KYC”.

E se contornarmos o duopólio?

(Imagem do site ColossusPay)

Existe uma categoria de sistemas de pagamento em cartão que mudam radicalmente o jogo: sistemas que não dependem de Visa ou Mastercard.

Colossus Pay é um exemplo dessa abordagem.

Ele não emite cartões por bancos licenciados, nem roteia transações por redes tradicionais. Funciona como uma rede de pagamento nativa de criptomoedas, conectada diretamente a adquirentes. Essas adquirentes têm relação com comerciantes e controlam os terminais de ponto de venda, como Fiserv, Elavon, Worldpay, entre outros.

Ao integrar na camada de adquirência, o Colossus contorna completamente o stack de emissores e redes de cartões. Stablecoins são roteadas diretamente para adquirentes, que as convertem e liquidam com os comerciantes. Isso reduz custos, acelera liquidações e elimina as taxas de “passagem” cobradas por Visa e Mastercard.

O mais importante: como não há participação de bancos emissores ou redes de cartões na cadeia de transações, não há entidades obrigadas por contrato a fazer KYC do usuário final. Sob o quadro regulatório atual, a única entidade com obrigação de KYC é o emissor de stablecoins. A rede de pagamento não precisa inventar brechas ou classificar erroneamente usuários, pois desde o início opera fora das regras do sistema de cartões.

Nesse modelo, o “cartão” é basicamente uma chave privada que autoriza pagamentos. O objetivo não é “sem KYC”, mas eliminar o duopólio e sua estrutura regulatória, de forma que o sistema seja naturalmente compatível.

Essa é uma via estruturalmente honesta para um sistema de pagamento sem KYC.

Se essa abordagem for viável, a questão óbvia é: por que ainda não se popularizou?

A resposta é a distribuição.

Conectar-se a adquirentes é difícil. São instituições conservadoras, que controlam os sistemas operacionais de terminais. A integração leva tempo, exige confiança e maturidade operacional. Mas é exatamente aí que pode ocorrer uma verdadeira mudança, pois essa camada controla como o mundo real aceita pagamentos.

A maioria das startups de cartões de criptomoeda optou por um caminho mais fácil: integrar-se às redes Visa ou Mastercard, fazer marketing agressivo, e expandir rapidamente antes que a fiscalização chegue. Construir algo fora do duopólio, mais lento e difícil, é a única rota que não termina com “fechamento”.

Do ponto de vista conceitual, esse modelo reduz o cartão a uma primitive de criptografia: não mais uma conta bancária emitida por um banco, mas uma chave privada que autoriza pagamentos.

Conclusão

Enquanto Visa e Mastercard forem a infraestrutura subjacente, não será possível fazer transações ilimitadas sem KYC. Essas limitações são estruturais, não técnicas; nenhuma marca, narrativa ou jargão pode mudar essa realidade.

Quando um cartão com o símbolo de Visa ou Mastercard promete alta quantidade e sem KYC, a explicação é simples: ou está usando a estrutura de cartões corporativos, colocando o usuário fora da relação jurídica com o banco; ou está fazendo declarações falsas sobre seu funcionamento real. A história já demonstrou isso repetidamente.

A alternativa mais segura é usar limites baixos em pré-pagos ou cartões-presente, com limites claros e expectativas definidas. A única solução duradoura e de longo prazo é abandonar completamente o duopólio Visa-Mastercard. Tudo o mais é temporário, frágil, e expõe o usuário a riscos que só percebem tarde demais.

Nos últimos meses, tenho visto um aumento acentuado na discussão sobre “cartões sem KYC”. Escrevo este artigo porque há uma enorme lacuna de conhecimento sobre como esses produtos realmente funcionam, e quais riscos legais e de custódia eles representam para os usuários. Não tenho nada para vender, escrevo por privacidade, porque isso é importante — independentemente do campo de atuação.

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