Recentemente, o Presidente da SEC, Paul Atkins, fez uma previsão ousada: nos próximos dois anos, todo o sistema financeiro dos EUA — desde ações, títulos do governo, produtos de crédito até imóveis — poderá ser completamente migrado para uma arquitetura baseada em blockchain. Esta não é uma declaração de brincadeira, mas sim um reflexo de uma estratégia ampla, impulsionada pela coordenação entre legisladores, reguladores e grandes instituições financeiras.
Se essa previsão se concretizar, ela marcará a maior mudança no mercado financeiro dos EUA desde o surgimento das bolsas eletrónicas na década de 1970. A questão não é “vai acontecer?”, mas sim “como isso afetará o sistema financeiro global?”.
Por que “dois anos”? A base legal está sendo construída
A previsão de Paul Atkins não surge do nada, mas baseia-se em passos claros. O projeto “Project Crypto” da SEC, combinado com duas leis principais — a GENIUS Act e a CLARITY Act — criou a estrutura legal necessária para essa transição.
A GENIUS Act trata da questão das moedas digitais. Ela permite a emissão de stablecoins regulamentadas, totalmente garantidas por reservas, e transfere a gestão para órgãos reguladores bancários. A ideia é simples: se a moeda digital for garantida como dinheiro em espécie, pode servir como meio de pagamento em blockchain.
A CLARITY Act resolve a ambiguidade jurídica. Ela define claramente as competências entre a SEC (valores mobiliários) e a CFTC (commodities), e especifica qual órgão regula cada tipo de ativo. Plataformas de criptomoedas agora sabem exatamente sob qual legislação operam, e podem solicitar registro como intermediários federais regulados.
Além da SEC, outras agências também participam:
OCC (Office of the Comptroller of the Currency, criado em 1973): fornece serviços de compensação e liquidação para derivativos. É uma ponte natural entre o mercado tradicional e o mercado de blockchain.
CFTC: principal regulador de futuros e derivativos. Sua cooperação garante que contratos futuros tokenizados tenham base legal sólida.
Essa cooperação em múltiplos níveis é a razão pela qual a previsão de “dois anos” não é fantasia — ela resulta de um planejamento cuidadoso.
Grandes players já estão em movimento: de experimentos à implementação
Com as estruturas legais sendo estabelecidas, as maiores instituições financeiras do mundo não hesitaram. Cada passo faz parte de um quadro maior de transformação financeira.
BlackRock começou emitindo um fundo de títulos do governo dos EUA tokenizado na Ethereum — numa cadeia pública. É um marco importante: a primeira vez que um fundo de uma das maiores gestoras de ativos do mundo aparece numa blockchain pública. Demonstra que a tecnologia funciona e abre caminho para outros fundos seguirem.
JPMorgan, por sua vez, rebatizou sua divisão de blockchain para Kinexys e introduziu swaps atômicos. Ou seja, bancos agora podem trocar ativos tokenizados por dinheiro em poucas horas, ao invés de dias. Se entender essa ideia, perceberá o que está acontecendo: as transações financeiras estão começando a otimizar para o mundo blockchain.
JPMorgan também testou o JPMD (stablecoin do JPMorgan) na blockchain Base — uma decisão estratégica para explorar o ecossistema mais amplo de blockchain público.
DTCC (Depository Trust & Clearing Corporation) é, de fato, o parceiro mais estratégico. Até 2025, ela gerencia ativos de aproximadamente $100,3 trilhões, incluindo 1,44 milhão de títulos emitidos. É o “armazém geral” e o “escritório de contabilidade” de todo o mercado de ações dos EUA.
Em 2025, a subsidiária DTC da DTCC recebeu uma “carta de não objeção” da SEC — um marco legal importante. Essa carta permite que a DTC conecte oficialmente o sistema tradicional de identificação de títulos (CUSIP) à infraestrutura de tokenização emergente. Ela já iniciou testes de tokenização de ações do Russell 1000 em ambiente controlado.
Quando T+0 se torna realidade: mudanças de impacto
Se tudo isso acontecer, o sistema financeiro dos EUA passará por mudanças profundas. Não são melhorias pequenas, mas saltos qualitativos em eficiência e funcionamento.
Velocidade de liquidação: de T+2 para T+0 (ou até segundos)
Hoje, no mercado de ações dos EUA, a liquidação padrão é T+2 (dois dias úteis após a transação). Na blockchain, a liquidação pode ocorrer quase instantaneamente — T+0 ou até em segundos.
UBS demonstrou isso ao emitir um título digital na plataforma SDX, atingindo liquidação T+0. O banco de investimento europeu também reduziu o prazo de liquidação de cinco dias para um dia.
Qual o benefício? Redução significativa do risco de contraparte e de risco operacional. Para transações sensíveis ao tempo, como operações de recompra (repo), diminuir o tempo de retenção de títulos é inestimável.
“Entrega atômica”: eliminando riscos
Na blockchain, “entrega atômica” significa que ativos e pagamento ocorrem simultaneamente, numa única transação indivisível. Se a transação não for concluída, ela é totalmente cancelada. Não há risco de “entregar antes, receber depois” como no sistema tradicional.
Além disso, blockchain permite liberar capital “parado”. Por exemplo, ativos de garantia podem liberar mais de $100 bilhões de capital preso em processos longos a cada ano.
Fundos do mercado monetário tokenizados (TMMF): dinheiro inteligente
Fundos tradicionais de mercado monetário (MMF) são considerados “dinheiro seguro” no mundo TradFi. Mas, ao serem tokenizados, tornam-se algo completamente diferente.
O BUIDL da BlackRock é um exemplo. Permite resgates instantâneos usando USDC (stablecoin do Circle). Diferente dos MMFs tradicionais, que exigem T+1, os TMMFs podem ser resgatados imediatamente. E, ao serem usados como garantia, continuam gerando juros até serem utilizados, eliminando o “custo de oportunidade” dos ativos tradicionais.
Transparência total do sistema
O livro-razão distribuído registra cada transação de forma imutável, pública e verificável. Contratos inteligentes podem automatizar verificações de conformidade e ações empresariais, como pagamento de dividendos.
Reguladores terão, pela primeira vez, uma “visão de Deus” — capacidade de monitorar todo o sistema em tempo real. Isso é extremamente poderoso para gestão de riscos.
Riscos a não ignorar
Claro, nem tudo é cor-de-rosa. Essa transição traz desafios consideráveis.
Liquidez versus eficiência de capital
A DTCC atualmente realiza compensação líquida — consolidando milhões de transações para reduzir a necessidade de dinheiro e títulos reais. Isso diminui até 98% a necessidade de capital.
Por outro lado, T+0 é uma liquidação em tempo real (RTGS), que pode eliminar a eficiência da compensação líquida. O mercado precisará encontrar um equilíbrio, como “repo intra-dia” — permitindo netting em curto prazo, preservando a velocidade.
Privacidade e transparência
Instituições financeiras dependem da privacidade das transações. Mas blockchains públicas como Ethereum são totalmente transparentes. Uma grande transação na Ethereum pode ser “front-run” — outros veem na mempool e criam transações similares para explorar.
Soluções podem incluir tecnologia de privacidade, como provas de conhecimento zero, ou operar em “permissioned chains” como a Kinexys do JPMorgan, onde apenas membros autorizados participam.
Risco sistêmico ampliado
O mercado 24/7 elimina o “período de resfriamento” do mercado tradicional. Transações algorítmicas ou, pior, chamadas de margem automáticas via contratos inteligentes, podem desencadear liquidações em cadeia em momentos de pressão, potencialmente ampliando riscos sistêmicos — como a pressão de liquidez na crise do LDI no Reino Unido, em 2022.
DTCC: ponte do antigo para o novo
A DTCC não é contra essa tendência, mas está se reposicionando como uma ponte estratégica.
Gerenciando $100,3 trilhões, ela registra quem possui o quê no mercado de ações dos EUA. Quando a DTC recebe a “carta de não objeção” da SEC para tokenizar ativos, ela está oficialmente autorizada a conectar o mundo antigo (CUSIP) ao novo (blockchain).
Isso tem três implicações principais:
A tokenização de ações agora pode conectar-se diretamente à infraestrutura oficial da DTC, ao invés de projetos independentes criarem seus próprios sistemas.
Bolsas como a Nasdaq podem atuar como exchanges centralizadas (CEX), enquanto a DTC gerencia contratos de tokens e permite resgates, promovendo liquidez real.
A DTCC já investe há quase uma década em tecnologia de blockchain para gestão de garantias. Com essa aprovação, pode finalmente aplicar esse conhecimento na prática.
Conclusão: A previsão de Paul Atkins não é uma fantasia
A previsão de “dois anos na cadeia” do presidente da SEC, Paul Atkins, não é uma mera fantasia. É um reflexo de uma estratégia cuidadosamente elaborada, apoiada por novos marcos legais, o compromisso das grandes instituições financeiras e uma infraestrutura (DTCC) pronta para atuar como ponte.
Se isso acontecer, mais de $50 trilhões do mercado financeiro dos EUA entrarão numa nova era — uma era programável, transparente, rápida e 24/7. Será a maior revolução desde os anos 1970.
Como toda previsão, traz desafios e riscos. A questão não é “se vai acontecer”, mas sim “se o sistema financeiro dos EUA está preparado para uma mudança dessa magnitude”.
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A profecia "dois anos na cadeia" da SEC: Quando todo o sistema financeiro dos EUA entra numa nova era
Recentemente, o Presidente da SEC, Paul Atkins, fez uma previsão ousada: nos próximos dois anos, todo o sistema financeiro dos EUA — desde ações, títulos do governo, produtos de crédito até imóveis — poderá ser completamente migrado para uma arquitetura baseada em blockchain. Esta não é uma declaração de brincadeira, mas sim um reflexo de uma estratégia ampla, impulsionada pela coordenação entre legisladores, reguladores e grandes instituições financeiras.
Se essa previsão se concretizar, ela marcará a maior mudança no mercado financeiro dos EUA desde o surgimento das bolsas eletrónicas na década de 1970. A questão não é “vai acontecer?”, mas sim “como isso afetará o sistema financeiro global?”.
Por que “dois anos”? A base legal está sendo construída
A previsão de Paul Atkins não surge do nada, mas baseia-se em passos claros. O projeto “Project Crypto” da SEC, combinado com duas leis principais — a GENIUS Act e a CLARITY Act — criou a estrutura legal necessária para essa transição.
A GENIUS Act trata da questão das moedas digitais. Ela permite a emissão de stablecoins regulamentadas, totalmente garantidas por reservas, e transfere a gestão para órgãos reguladores bancários. A ideia é simples: se a moeda digital for garantida como dinheiro em espécie, pode servir como meio de pagamento em blockchain.
A CLARITY Act resolve a ambiguidade jurídica. Ela define claramente as competências entre a SEC (valores mobiliários) e a CFTC (commodities), e especifica qual órgão regula cada tipo de ativo. Plataformas de criptomoedas agora sabem exatamente sob qual legislação operam, e podem solicitar registro como intermediários federais regulados.
Além da SEC, outras agências também participam:
Essa cooperação em múltiplos níveis é a razão pela qual a previsão de “dois anos” não é fantasia — ela resulta de um planejamento cuidadoso.
Grandes players já estão em movimento: de experimentos à implementação
Com as estruturas legais sendo estabelecidas, as maiores instituições financeiras do mundo não hesitaram. Cada passo faz parte de um quadro maior de transformação financeira.
BlackRock começou emitindo um fundo de títulos do governo dos EUA tokenizado na Ethereum — numa cadeia pública. É um marco importante: a primeira vez que um fundo de uma das maiores gestoras de ativos do mundo aparece numa blockchain pública. Demonstra que a tecnologia funciona e abre caminho para outros fundos seguirem.
JPMorgan, por sua vez, rebatizou sua divisão de blockchain para Kinexys e introduziu swaps atômicos. Ou seja, bancos agora podem trocar ativos tokenizados por dinheiro em poucas horas, ao invés de dias. Se entender essa ideia, perceberá o que está acontecendo: as transações financeiras estão começando a otimizar para o mundo blockchain.
JPMorgan também testou o JPMD (stablecoin do JPMorgan) na blockchain Base — uma decisão estratégica para explorar o ecossistema mais amplo de blockchain público.
DTCC (Depository Trust & Clearing Corporation) é, de fato, o parceiro mais estratégico. Até 2025, ela gerencia ativos de aproximadamente $100,3 trilhões, incluindo 1,44 milhão de títulos emitidos. É o “armazém geral” e o “escritório de contabilidade” de todo o mercado de ações dos EUA.
Em 2025, a subsidiária DTC da DTCC recebeu uma “carta de não objeção” da SEC — um marco legal importante. Essa carta permite que a DTC conecte oficialmente o sistema tradicional de identificação de títulos (CUSIP) à infraestrutura de tokenização emergente. Ela já iniciou testes de tokenização de ações do Russell 1000 em ambiente controlado.
Quando T+0 se torna realidade: mudanças de impacto
Se tudo isso acontecer, o sistema financeiro dos EUA passará por mudanças profundas. Não são melhorias pequenas, mas saltos qualitativos em eficiência e funcionamento.
Velocidade de liquidação: de T+2 para T+0 (ou até segundos)
Hoje, no mercado de ações dos EUA, a liquidação padrão é T+2 (dois dias úteis após a transação). Na blockchain, a liquidação pode ocorrer quase instantaneamente — T+0 ou até em segundos.
UBS demonstrou isso ao emitir um título digital na plataforma SDX, atingindo liquidação T+0. O banco de investimento europeu também reduziu o prazo de liquidação de cinco dias para um dia.
Qual o benefício? Redução significativa do risco de contraparte e de risco operacional. Para transações sensíveis ao tempo, como operações de recompra (repo), diminuir o tempo de retenção de títulos é inestimável.
“Entrega atômica”: eliminando riscos
Na blockchain, “entrega atômica” significa que ativos e pagamento ocorrem simultaneamente, numa única transação indivisível. Se a transação não for concluída, ela é totalmente cancelada. Não há risco de “entregar antes, receber depois” como no sistema tradicional.
Além disso, blockchain permite liberar capital “parado”. Por exemplo, ativos de garantia podem liberar mais de $100 bilhões de capital preso em processos longos a cada ano.
Fundos do mercado monetário tokenizados (TMMF): dinheiro inteligente
Fundos tradicionais de mercado monetário (MMF) são considerados “dinheiro seguro” no mundo TradFi. Mas, ao serem tokenizados, tornam-se algo completamente diferente.
O BUIDL da BlackRock é um exemplo. Permite resgates instantâneos usando USDC (stablecoin do Circle). Diferente dos MMFs tradicionais, que exigem T+1, os TMMFs podem ser resgatados imediatamente. E, ao serem usados como garantia, continuam gerando juros até serem utilizados, eliminando o “custo de oportunidade” dos ativos tradicionais.
Transparência total do sistema
O livro-razão distribuído registra cada transação de forma imutável, pública e verificável. Contratos inteligentes podem automatizar verificações de conformidade e ações empresariais, como pagamento de dividendos.
Reguladores terão, pela primeira vez, uma “visão de Deus” — capacidade de monitorar todo o sistema em tempo real. Isso é extremamente poderoso para gestão de riscos.
Riscos a não ignorar
Claro, nem tudo é cor-de-rosa. Essa transição traz desafios consideráveis.
Liquidez versus eficiência de capital
A DTCC atualmente realiza compensação líquida — consolidando milhões de transações para reduzir a necessidade de dinheiro e títulos reais. Isso diminui até 98% a necessidade de capital.
Por outro lado, T+0 é uma liquidação em tempo real (RTGS), que pode eliminar a eficiência da compensação líquida. O mercado precisará encontrar um equilíbrio, como “repo intra-dia” — permitindo netting em curto prazo, preservando a velocidade.
Privacidade e transparência
Instituições financeiras dependem da privacidade das transações. Mas blockchains públicas como Ethereum são totalmente transparentes. Uma grande transação na Ethereum pode ser “front-run” — outros veem na mempool e criam transações similares para explorar.
Soluções podem incluir tecnologia de privacidade, como provas de conhecimento zero, ou operar em “permissioned chains” como a Kinexys do JPMorgan, onde apenas membros autorizados participam.
Risco sistêmico ampliado
O mercado 24/7 elimina o “período de resfriamento” do mercado tradicional. Transações algorítmicas ou, pior, chamadas de margem automáticas via contratos inteligentes, podem desencadear liquidações em cadeia em momentos de pressão, potencialmente ampliando riscos sistêmicos — como a pressão de liquidez na crise do LDI no Reino Unido, em 2022.
DTCC: ponte do antigo para o novo
A DTCC não é contra essa tendência, mas está se reposicionando como uma ponte estratégica.
Gerenciando $100,3 trilhões, ela registra quem possui o quê no mercado de ações dos EUA. Quando a DTC recebe a “carta de não objeção” da SEC para tokenizar ativos, ela está oficialmente autorizada a conectar o mundo antigo (CUSIP) ao novo (blockchain).
Isso tem três implicações principais:
Conclusão: A previsão de Paul Atkins não é uma fantasia
A previsão de “dois anos na cadeia” do presidente da SEC, Paul Atkins, não é uma mera fantasia. É um reflexo de uma estratégia cuidadosamente elaborada, apoiada por novos marcos legais, o compromisso das grandes instituições financeiras e uma infraestrutura (DTCC) pronta para atuar como ponte.
Se isso acontecer, mais de $50 trilhões do mercado financeiro dos EUA entrarão numa nova era — uma era programável, transparente, rápida e 24/7. Será a maior revolução desde os anos 1970.
Como toda previsão, traz desafios e riscos. A questão não é “se vai acontecer”, mas sim “se o sistema financeiro dos EUA está preparado para uma mudança dessa magnitude”.