Entendendo o PER: A métrica que todo investidor deve dominar

O que é PER e por que importa na bolsa?

O PER é um dos indicadores mais relevantes da análise fundamental. As suas siglas correspondem a Price/Earnings Ratio, ou em português, Índice Preço/Lucro. Em essência, esta métrica mostra-nos quantas vezes o valor de mercado de uma empresa está representado pelos seus lucros anuais.

Dito de outra forma: se uma empresa tem um PER de 15, significa que os seus lucros atuais (projetados a 12 meses) pagariam o preço total da empresa em 15 anos. Ou seja, estamos a ver quanto está disposto o mercado a pagar por cada euro de lucro que a sociedade gera.

A análise fundamental reconhece seis rácios essenciais para avaliar a saúde empresarial. O PER lidera esta lista, acompanhado pelo BPA (Benefício Por Ação ou EPS em inglês), o P/VC, o EBITDA, o ROE e o ROA. No entanto, o PER destaca-se porque nos permite não só fazer comparações entre empresas, mas também rastrear como evoluem os lucros corporativos ao longo do tempo.

Como funciona o PER na prática real

A teoria é bonita, mas vejamos como se comporta nos mercados reais. Tomemos o caso da Meta Platforms (antigamente Facebook). Há alguns anos, o seu padrão era previsível: enquanto o PER diminuía progressivamente, o preço da ação subia constantemente. A razão? A empresa gerava cada vez mais lucros, o que justificava a subida da cotação.

No entanto, desde finais de 2022, este padrão foi quebrado. Apesar de o PER continuar a diminuir (indicando lucros crescentes), a ação colapsou. Porquê? Porque a Reserva Federal começou a subir as taxas de juro, o que fez com que o mercado reavaliasse os valores tecnológicos em alta, independentemente dos seus lucros.

Outro exemplo revelador é a Boeing. Neste caso, o PER mantém-se a oscilar dentro de intervalos consistentes, e a ação sobe ou desce em correlação direta com essas flutuações. O que aqui é interessante é que o sinal do PER (positivo ou negativo) marca diferenças cruciais na interpretação do comportamento acionista.

Estes exemplos demonstram que o PER não é um preditor isolado. O contexto macroeconómico, as expectativas de crescimento setorial e o sentimento de mercado desempenham papéis determinantes.

O cálculo do PER: duas fórmulas, mesmo resultado

Existem duas abordagens para calcular esta métrica, e ambas fornecem resultados equivalentes:

Abordagem 1 (Magnitudes globais): Capitalização bolsista da empresa ÷ Lucro líquido total

Abordagem 2 (Nível por ação): Preço da ação ÷ Lucro por ação (LPA)

A beleza do PER reside na sua simplicidade. Os dados necessários são de acesso público e fácil obtenção, permitindo a qualquer investidor fazer estes cálculos por conta própria, sem dependências tecnológicas.

Onde encontrar o PER

Qualquer plataforma financeira decente inclui o PER juntamente com outros indicadores. Geralmente aparece sob as siglas “PER” em sites espanhóis ou sob “P/E” em plataformas anglo-saxónicas. Junto a ele, encontrará a capitalização bolsista, o BPA, o intervalo de 52 semanas e o total de ações em circulação.

Por exemplo, plataformas como a Infobolsa mostram todos estes dados estruturados para ações espanholas, enquanto o Yahoo! Finance adota o formato P/E para valores internacionais.

Exemplos práticos de cálculo

Caso A: Imaginemos uma empresa com capitalização bolsista de 2.600 milhões de dólares e lucros líquidos de 658 milhões de dólares. O seu PER seria: 2.600 ÷ 658 = 3,95

Este é um PER muito baixo, típico de empresas maduras ou em setores tradicionais.

Caso B: Uma companhia onde cada ação custa 2,78 dólares e o lucro por ação é de 0,09 dólares. O cálculo: 2,78 ÷ 0,09 = 30,9

Aqui vemos um PER muito mais elevado, mais comum em empresas de crescimento ou tecnológicas.

Variantes do PER: Shiller e normalizado

Não existe uma única forma de interpretar esta métrica. A indústria desenvolveu variantes para abordar limitações específicas.

O PER de Shiller

Uma crítica comum ao PER tradicional é que só contempla os lucros de um exercício fiscal, um horizonte temporal demasiado curto. Os resultados podem ser voláteis ano após ano, o que distorce a imagem real da empresa.

O PER de Shiller responde a esta limitação ampliando o quadro temporal. Em vez de um ano, utiliza os lucros médios dos últimos 10 anos, ajustados pela inflação. A teoria propõe que esta abordagem de década permite projetar razoavelmente os lucros dos próximos 20 anos.

Fórmula: Capitalização bolsista ÷ Lucros médios de 10 anos (ajustados pela inflação)

O PER normalizado

Esta variante enfatiza a saúde financeira corporativa mais do que o período de análise. Calcula-se assim:

(Capitalização - Ativos líquidos + Dívida financeira) ÷ Free Cash Flow

Este cálculo “limpa” muito mais os números, separando o essencial do ruído. Um exemplo emblemático: quando o Santander adquiriu o Banco Popular por 1 euro, na realidade assumiu uma dívida multimilionária que fez com que concorrentes como o Bankia e o BBVA se retirassem. O PER normalizado teria captado esta complexidade muito melhor do que a métrica padrão.

Interpretando intervalos: de 0 a infinito

A interpretação do PER varia consoante o seu intervalo:

  • 0-10: PER baixo, atrativo à primeira vista, mas sinal de alerta: os lucros poderão cair em breve
  • 10-17: A zona “dourada” para analistas, indicando crescimento equilibrado sem expectativas distorcidas
  • 17-25: Território ambíguo: pode refletir crescimento real ou formação de bolha
  • Mais de 25: Extremamente volátil na interpretação: pode significar projeções extraordinárias ou sobrevalorização descomunal

Aqui vem o aviso crucial: se o sucesso do investidor dependesse apenas do PER, os analistas fariam uma única coisa: procurar PER baixos e comprar. Mas a realidade é mais complexa.

A armadilha do PER baixo: quando baixo NÃO significa bom

Muitas empresas cotizam com PER baixo porque estão falidas, mal geridas ou próximas do colapso. O mercado não confia no seu futuro de lucros, por isso avalia as ações a preço de oportunidade.

A história financeira está repleta de casos onde empresas com PER aparentemente atrativo acabaram na falência. Por isso, o PER nunca deve ser o único critério de investimento.

PER por setor: comparar peras com peras

Um erro grave é comparar o PER de empresas de setores diferentes. Os bancos e siderúrgicas tradicionalmente cotizam com PER baixo (Arcelor Mittal: 2,58), enquanto que tecnológicas e biotecnológicas exibem PER elevadíssimos.

A Zoom Video, por exemplo, atingiu um PER de 202,49 durante o seu auge pandémico. Está sobrevalorizada? Não necessariamente, considerando as suas perspetivas de crescimento. Será que o mesmo critério se aplica à Arcelor Mittal? De modo algum.

A regra de ouro: compare sempre empresas do mesmo setor, geografia e contexto de mercado para que as métricas sejam relevantes.

O PER como ferramenta de comparação value

Os investidores que praticam Value Investing (procurar boas empresas a bom preço) utilizam intensivamente o PER. Fundos como o Horos Value Internacional FI mantêm um PER de 7,24 face aos 14,56 da sua categoria, demonstrando a estratégia de selecionar ativos subvalorizados.

De forma semelhante, o Cobas Internacional FI exibe um PER de 5,46, confirmando que a busca sistemática por PER baixos é central nesta filosofia de investimento.

Combinando PER com outras métricas

Aqui está o segredo que muitos investidores iniciantes ignoram: o PER é inútil sem companhia.

Junto ao PER, considere sempre:

  • BPA (Benefício Por Ação): confirma a qualidade dos lucros
  • Preço/Valor Contabilístico (P/VC): avalia ações versus património
  • ROE e ROA: rentabilidades do capital investido
  • RoTE: retorno sobre capital tangível

Além disso, uma análise rigorosa requer estudar a composição das receitas, margens operacionais, dívida líquida e estrutura de despesas. Pode acontecer que os lucros sejam altos simplesmente porque a empresa vendeu um ativo financeiro, não porque o seu negócio esteja a melhorar.

Vantagens indiscutíveis do PER

  • Acessível: cálculo simples sem necessidade de ferramentas sofisticadas
  • Comparativo rápido: permite avaliar empresas do mesmo setor em segundos
  • Universalmente consultado: analistas e investidores institucionais usam-no como referência padrão
  • Inclusivo: funciona mesmo com empresas que não pagam dividendos

As limitações que deve conhecer

  • Dados estáticos: reflete um momento, não dinamicamente o futuro
  • Ciclos empresariais: em empresas cíclicas, o PER é alto em recessão e baixo em expansão, o que confunde a análise
  • Empresas sem lucros: inaplicável a startups ou empresas em fase de falência
  • Informação de curto prazo: projeta um ano para o futuro, demasiado curto para investimentos estratégicos

Conclusão: o PER na sua justa medida

O PER é uma ferramenta fundamental, mas não absoluta. A sua maior utilidade reside em comparações setoriais rápidas dentro de contextos geográficos semelhantes. Jamais deve investir apenas com base em PER baixo.

Lembre-se: muitas empresas à beira da falência têm PER baixo porque ninguém confia nelas. Uma estratégia vencedora combina PER com análise aprofundada da empresa, dedicando pelo menos uma hora a compreender as suas entranhas financeiras. Assim, construirá um portfólio sólido e potencialmente rentável, não uma coleção de armadilhas de valor.

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