Como se calcula o valor de uma ação: a bússola do mercado

Quando entramos no mundo das bolsas, deparamo-nos com uma pergunta inevitável: qual é realmente o preço de uma ação? Esse número que pisca na tela não aparece por magia. Por trás dele existe um mecanismo que funciona há séculos, embora muitas vezes o demos como garantido sem entender seu funcionamento profundo.

A origem do preço: do escambo à moeda

Imaginemos uma aldeia antiga onde tudo era trocado diretamente: tantas velas de cera por um pão, tantas peles de vaca por um tapete. Esse sistema funcionava, mas sofria de ineficiências monumentais. O que acontecia quando o padeiro não queria o que oferecia o criador de gado? Como estabelecer se dez alfaces equivaliam realmente a uma vaca?

A moeda surgiu precisamente para resolver esse caos. Ao atribuir um valor numérico a cada bem, facilitava qualquer transação. Agora o padeiro sabia exatamente quantas moedas receberia por seus pães, sem necessidade de negociar com cada cliente conforme o que este tinha para oferecer.

Nos mercados modernos acontece exatamente o mesmo. A Lei da Oferta e da Procura determina o preço de cotação de qualquer título. Quando mais compradores querem adquirir uma ação do que vendedores dispostos a vender, o preço sobe. Quando ocorre o inverso, cai. Aquele ponto de equilíbrio, aquele consenso que surge entre forças opostas, é o que chamamos de valor de mercado.

O que é exatamente o valor de uma ação?

Não é um conceito abstrato nem um número retirado de um modelo matemático complexo. O preço de cotação de uma ação é simplesmente o que o mercado diz que vale, aqui e agora. Nada mais, nada menos.

Suponhamos que uma empresa chamada “ABC” cotiza a 16 euros por ação. Esse número reflete o equilíbrio atual entre quem deseja comprar e quem deseja vender. Se você tentar colocar uma ordem de venda a 34 euros, provavelmente não encontrará comprador. Ao mesmo tempo, se oferecer apenas 12 euros, nenhum vendedor aceitará.

Isto nos leva a uma verdade incómoda: sim, formalmente pode estabelecer o preço que desejar, mas o mercado não está obrigado a corresponder-lhe. Sua ordem simplesmente ficará pendente, sem ser executada.

O dilema da liquidez: quando o preço se torna ilusório

Aqui vem o aspecto crucial que muitos investidores novatos ignoram ou minimizam: a liquidez. Um ativo pode ter um preço de mercado teórico, mas se ninguém estiver comprando nem vendendo realmente, esse preço é praticamente ficção.

Todos já vimos manchetes dramáticas sobre ações que “explodiram” em valor. Quando investigamos o fundo, descobrimos algo inquietante: o volume de transações era minúsculo. Com poucos demandantes e poucos ofertantes, ocorrem três coisas possíveis: a operação não se realiza, ganha o vendedor agressivo, ou ganha o comprador agressivo. Nenhuma reflete um preço verdadeiramente estável.

A liquidez é vital para que o preço seja real. Os ativos negociados massivamente têm preços confiáveis. Os títulos pouco transacionados podem se transformar em “armadilhas de liquidez” das quais é quase impossível escapar sem perdas significativas.

Mercado primário versus mercado secundário: onde se forma o preço

Existe uma distinção fundamental que afeta diretamente o conceito de valor de uma ação.

No mercado primário, as empresas, governos ou organismos emitem títulos novos. O dinheiro vai diretamente para o emissor. É onde nascem as ações. As colocações podem ser diretas (venda privada prévia com investidores específicos) ou indiretas (por meio de intermediários financeiros).

No mercado secundário, os proprietários já existentes negociam esses títulos entre si, sem que o dinheiro volte para a empresa. É onde você compra ações de outro investidor, não da própria companhia.

E aqui vem o importante: o preço de mercado que todos observamos e do qual falamos é o do mercado secundário. É o mercado contínuo, dinâmico, onde fluem milhões de ordens diariamente.

Capitalização de mercado: o próximo nível

Existe uma relação direta entre o preço individual de uma ação e o que chamamos de capitalização de mercado (valor de mercado). Este último é simplesmente o preço de cada ação multiplicado pelo total de ações em circulação.

Se uma empresa tem 1.000 milhões de ações e cada uma custa 50 euros, a capitalização é de 50.000 milhões de euros. Conhecer um valor permite calcular o outro automaticamente.

O que é crucial aqui é entender que a capitalização de mercado não reflete necessariamente o valor contábil real da empresa. Uma companhia pode ter ativos de cem milhões segundo seu balanço, mas se o mercado for pessimista, sua capitalização pode ser menor. E vice-versa: se houver euforia especulativa, o mercado pode avaliá-la acima de seus livros.

Diferentes formas de valorar: nominal, contábil e de mercado

Para evitar confusões, esclareçamos três conceitos distintos:

Valor nominal: é simplesmente o preço de emissão original. É calculado dividindo o capital social pelo número total de ações emitidas. Serve como referência histórica, mas pouco mais. Com o tempo, diverge enormemente do preço real.

Valor líquido contábil: surge de dividir o patrimônio líquido (ativos menos passivos) pelo número de ações. Muitos investidores de orientação “value” consideram-no a métrica verdadeira, ignorando o que diz o mercado. Teorizam que eventualmente o preço convergirá para esse valor.

Valor de mercado: é o que acabamos de descrever. A confluência de compradores e vendedores. Volátil, emocional, às vezes eficiente e completamente irracional em outras.

A realidade incómoda: o mercado nem sempre é eficiente

Chegando a este ponto, devemos enfrentar uma verdade difícil: o preço de mercado está longe de ser perfeito. Frequentemente não reflete o valor real de uma empresa, mas sim a percepção coletiva, a especulação, o medo e a ganância.

As bolhas financeiras são a prova mais evidente. Investidores compram ativos simplesmente porque sobem, sem entender por quê. O fenômeno se retroalimenta: o aumento do preço atrai mais compradores, o que dispara mais o preço, seduzindo mais especuladores.

Terra é um exemplo instrutivo. Em menos de um ano, passou de cotar a 11,81 euros para atingir 157,60 euros. Foi promovida na televisão como um negócio bursátil extraordinário, puro entusiasmo sem fundamentos sólidos. Foi absorvida pela sua matriz Telefónica e finalmente desapareceu em 2017.

Gowex oferece outra lição ainda mais amarga. A empresa presumia ser um dos maiores fornecedores mundiais de Wi-Fi. O problema: a maioria ignorava como essa tecnologia realmente funcionava. Seu CEO mentia descaradamente sobre a viabilidade. Uma análise crítica de investigadores americanos desmontou a narrativa, e os investidores descobriram tarde demais que tinham participado de uma fraude monumental.

O cálculo prático: como determinar o preço

Para aqueles interessados na fórmula técnica: o preço de uma ação é calculado dividindo a capitalização de mercado pelo número total de ações em circulação.

No entanto, a boa notícia é que não precisa fazer esse cálculo manualmente. Seu intermediário bursátil fornece-o instantaneamente na tela. O que sim é crucial entender é a diferença entre o preço de compra (“ask”) e o preço de venda (“bid”). Essa diferença é conhecida como “spread” e representa a comissão implícita que o intermediário retira de cada transação.

Todos os ativos têm preço?

Não. A liquidez volta a ser o fator determinante. Ações de grandes empresas como o BBVA encontram contrapartes instantaneamente. Ações pequenas como Urbas dificilmente. E se você adentrar territórios mais exóticos como private equity ou dívida não cotizada, pode descobrir que seu “investimento” é praticamente impossível de liquidar sem aceitar perdas severas.

Conclusão: navegando na complexidade

O valor de mercado de uma ação é ao mesmo tempo simples e complexo. Simples na sua definição: é o que o mercado diz que vale. Complexo na sua aplicação: porque esse preço pode ser racional ou especulativo, eficiente ou ilusório, duradouro ou efêmero.

No contexto atual de tipos de juros normais (após anos de taxas zero) e políticas monetárias restritivas, a abordagem especulativa “growth” perde atratividade. Os mercados buscam mais solidez, fluxos de caixa constantes, despesas controladas. Empresas que ganham dinheiro hoje importam mais do que promessas de lucros amanhã.

A lição final: entenda a diferença entre preço de mercado e valor real. O primeiro flutua constantemente. O segundo requer análise profunda. Sua capacidade de distingui-los determinará seu sucesso como investidor.

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